O começo do fim
As árvores, outrora orgulhosas e imponentes, agora se inclinam cansadas, como velhos que perderam as forças. Seus galhos ressecados estendem-se como mãos suplicantes ao céu, pedindo chuva, pedindo alívio, mas só encontram cinzas. O verde parece um devaneio distante. Onde os rios antes corriam livres, a terra agora geme, sedenta por gotas que talvez nunca mais venham.
Nós? Nós continuamos a caminhar, pisando em estradas cada vez mais áridas, sem nos darmos conta de que carregamos o eco de nossos próprios passos como prelúdio de uma marcha final. O asfalto quente arde sob os pés descalços da humanidade, e cada estação parece ser a última, como se o outono já não fosse mais um ciclo, mas um epílogo.
Estamos cegos em nossa ânsia por acumular. Queremos mais: mais coisas, mais casas, mais carros, mais viagens, mais tudo. Sem percebermos que as passadas apressadas nos levam a lugar nenhum. Carregamos nas costas o peso de nossas posses, mas o que possuímos, na verdade, é uma ilusão - uma tentativa desesperada de agarrar algo tangível enquanto o mundo à nossa volta se desfaz.
Há quem colecione metros quadrados, quem transforme a vida numa corrida para preencher espaços vazios com móveis e objetos. Mal percebem que, ao redor, o vazio real é outro. Os lagos estão secando, as florestas viram fumaça, e o verde das notas não tem o poder de fazer brotar uma única folha no chão estéril. Os olhos, cheios de cobiça, não conseguem enxergar além das vitrines e telas que brilham artificialmente, ignorando que, do lado de fora, o céu, antes azul, agora carrega tons de cinza sufocante.
Nas cidades, o concreto se aquieta, sufocado pelo calor que se acumula entre os prédios. Os corpos se movem alvoroçados, mas não há fuga possível. O ar vibra com a tensão dos noticiários, os números, os gráficos, as promessas quebradas. Uma febre invisível, feita de dióxido de carbono e ignorância, corre pelas veias do planeta. E, ainda assim, seguimos em frente, correndo atrás de posses como se pudéssemos levar tudo conosco quando o fim nos alcançar. O tempo, antes aliado, agora parece nos escorrer pelas mãos como areia.
E quem se lembra do início? Do tempo em que o vento ainda era brisa, quando as noites estreladas eram frescas, e o mar cantava melodias de uma eternidade que nos tranqüilizava? O começo do fim não chegou de repente. Foi uma seqüência de pequenos descuidos, um hábito de fingir que sempre haveria mais - mais água, mais terra, mais ar, mais tempo. E agora, neste exato momento, quando sentimos o calor que aperta o peito, já não sabemos se há retorno.
As mudanças, tão amplamente faladas, são mais do que previsões de cientistas. São realidades cotidianas, o frio que já não chega no inverno, a tempestade que desaba no verão, as estações que perderam a memória de si mesmas. A Terra está cansada, sua pele marcada por cicatrizes de poluição, desmatamentos, queimadas, geleiras que choram seus últimos lamentos. Certa vez, um meteoro devastou o planeta e a vida nele. Hoje, esse meteoro somos nós.
Estamos diante de um precipício, e o salto não é uma escolha, mas uma conseqüência. O fim já começou, não com um estrondo, mas com o silêncio sufocado das espécies extintas, com o evaporar dos rios, com o desespero das florestas em chamas. As cicatrizes do planeta são também as nossas, mas parece que nem agora nos damos conta de que o tempo do amanhã já não nos pertence.
No calor opressivo de um meio-dia qualquer, é fácil esquecer que somos passageiros. Que o ar, a água, a natureza - tudo isso nos foi emprestado por um tempo breve, e que esse tempo, talvez esteja se esgotando. Porque o começo do fim não é mais uma previsão distante, mas um agora que pulsa, um agora que pede urgência. E tudo que acumulamos será apenas poeira diante da imensidão desse colapso.
E enquanto nós, infantis e arrogantes, tentamos apertar as rédeas do destino, a Terra, velha e sábia, continuará a girar, com ou sem nossa presença. E tardiamente constataremos que tudo que possuímos, afinal, nunca foi realmente nosso.
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