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Mostrando postagens com o rótulo Contos

Palavras cafeinadas

O sol matinal banhava a chácara com uma luz que a pintava de tons dourados e suaves. As cortinas brancas estavam semiabertas até a metade, permitindo que os primeiros raios solares entrassem dançando no quarto. O cômodo estava preenchido com o inebriante aroma do café recém-preparado, misturando-se irresistivelmente ao odor de feromônios que pairava no ar. Sentados lado a lado, os amantes entrelaçavam suas pernas entre os lençóis bagunçados da noite anterior. Os blocos de papel à frente deles, esperavam pacientemente para serem preenchidos com as palavras que descreveriam sua paixão ardente. Canetas nas mãos, eles se olhavam e sorriam alternadamente relembrando os momentos enquanto transfiguravam as memórias e sensações recentes em letras no papel, perdendo-se em seus brilhos e nas lembranças dos instantes partilhados. Cada arrepio, cada gota de suor, cada gemido e cada suspiro eram cuidadosamente convertidos em palavras escritas. O café fumegante aquecia suas bocas enquanto eles escre...

Entre magias e orgias

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     Era uma noite de lua cheia quando os caminhos do semideus e da bruxa se cruzaram. Encontraram-se numa clareira encantada, onde a energia da natureza pulsava intensamente.      Ele, com seus olhos ardentes como um bom vinho bordô seco, emanava um magnetismo irresistível, e seu sorriso malicioso carregava uma promessa de êxtase e prazer; enquanto ela, com sua pele alva quão brilho lunar, possuía uma beleza misteriosa e selvagem, e seus longos cabelos pretos como a meia-noite se espalhavam como galhos noturnos, .      A bruxa era uma fervorosa admiradora de Lilith, a poderosa deusa da noite e da sexualidade. Ela possuía um conhecimento intrínseco das ervas, se conectava profundamente com a natureza, encontrando sua magia nas folhas das árvores, nas flores que desabrochavam e no fluxo dos rios. Sua independência e devoção à sua própria vontade eram tão fortes quanto à essência da deusa venerada.      O semideus, por sua vez, a...

Prisão

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Estou preso! Como vim parar aqui? Como saio daqui? Como me permiti? Logo eu, que sonhava tanto em voar, hoje me pego desejando meramente um lugar pra aterrissar. Sem rota de fuga, corroído pela culpa, isolado e condenado. Com sentença transitada em julgado, sem direito a recurso. Não tenho a vida que sonhei, muito menos a que pedi a Deus, nem tampouco a que mereço. Mas que tolice a minha, acreditar um dia que nesse mundo tens aquilo que mereces. Tolo! Tento esquecer o passado e olhar adiante, mas não há mais tempo! Tempo, seu maldito! Passaste tão depressa diante dos meus olhos e nem notei. Tardiamente percebi quão implacável e intolerante és com a indiferença alheia. Carente de atenção como nenhum outro! Sonhos ofuscados por pesadelos. Tantos! Nem mesmo o inconsciente concede-me o privilégio de escapar da realidade. "Mas nada como um dia após o outro", é o que dizem. Porém, no abrir dos olhos, todos os dias são na verdade o mesmo dia. Paciência e condescendência são os meus ...

O homem que conduz

Alfredo conduz seu carro; é o seu trabalho. Trabalha das cinco da manhã até as oito da noite. Alguns dias, volta pra casa às dez ou onze da noite e está cansado. Mas gosta de conduzir seu carro. No seu veículo, escuta sobre os momentos e os dias dos seus passageiros - as pessoas para quem conduz. No seu carro, Alfredo escuta ao rádio, e quando faz calor afora, com as janelas abertas, escuta à cidade. Agrada-lhe escutar aos seus passageiros quando está no seu carro. São todos diferentes, com diferentes histórias, batalhas, objetivos, conflitos, cidades, às vezes até países. Na semana passada, Alfredo levou um homem à peça teatral do seu filho. O homem lhe deu uma gorjeta a mais por conduzi-lo a tempo. Na segunda-feira, levou uma mulher ao aeroporto onde ela abraçou a um velho amigo da universidade. Esta manhã, levou uma mulher e um homem ao hospital porque a mulher ia ter um bebê. Alfredo lhes contou sobre o dia quando ele e sua mulher, Mariana, voltaram de táxi do hospital. Agora são o...

O catador de livros

Ele era só mais um entre tantos numa capital urbana. As vidas transpassando entre passos e descompassos; prazos e atrasos; em meio a percalços e descalços; tratos, maltratos e maus-tratos. E lá estava ele. Sucumbindo à dureza da cidade que ergue edifícios que arranham os céus e rebaixa pessoas arrastando-as ao chão. Não era culpa desta cidade, ora pois! Todas têm suas riquezas e pobrezas; suas alegrias e tristezas; suas tolices e suas destrezas; suas bondades e suas maldades; suas mentiras e suas verdades. Mas nesta, lá estava ele! Com a roupa do corpo e uma sacola na mão caminhava mesmo sem chão. Não tinha teto, mas a esperança era o seu abrigo. Não tinha rumo e o horizonte era o seu destino. Não tinha pressa, mas o tempo era seu inimigo. A noite caía, a gente se recolhia, o silêncio ensurdecia. E lá estava ele. O sol nascia, a gente surgia, o silêncio findaria. E lá estava ele. Todo dia era a novidade que se repetia, a mesmice que persistia, o propósito que se esvaí...

Ela era especial

Ela tinha a doçura de uma menina e a sensualidade de uma mulher. Era pequena, mas seu caráter a agigantava. Sua timidez contrastava com o seu corpo que exalava promiscuidade. Coxas lisas, macias; quadris largos salientados pela cintura fina que detinha o impressionante poder magnético de atrair às minhas mãos. Sua barriga e seu umbigo também não passavam despercebidos. Seios pequenos, porém firmes, que encaixavam-se perfeitamentes nas minhas mãos; na minha boca. Ainda lembro da harmonia de sensações que isso provocava nela: podia-se perceber suas contrações, sua respiração pesada, ofegante; e principalmente a intensa taquicardia do seu coração que um dia fora meu. Assim como a sua boca. E que boca! Lábios doces, macios, bem delineados e perfeitamente assimétricos. Os quais se apartavam ligeiramente para exibir seu lindo sorriso quando seus olhos caramelo brilhavam de felicidade ao avistar-me chegando. Ai, aquele sorriso! Tenho certeza de que até hoje consegue o que quiser com ele...

O órfão

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Desde criança ele aprendeu a ser adulto. A juventude fora um privilégio do qual não pôde se dar ao luxo de gozar. É sempre assim! Quando se é fruto de uma gravidez acidental, ganhar a vida não é uma escolha; é um fado. Negligenciado aos braços de sua jovem e irresponsável genitora, também perdera os daqueles que o acolheram. Aos 10 anos, órfão de mãe; aos 15 de pai. A morte foi sua companheira prematuramente, ignorando a inexperiência que o impedia de compreender em sua totalidade a força permanente e irreversível de tal. Conviveu num ambiente hostil e sem amor, e talvez por isso este sentimento confunda tanto a sua cabeça. Uma de suas irmãs fora praticamente obrigada a acolhê-lo; embora nunca o permitisse esquecer de que ele não era seu parente de fato. "O maior erro do mundo foi minha mãe e meu pai terem te pegado pra criar", bradava. Não é de surpreender que raramente parasse em casa. Nem sequer ousava chamar de lar. Não achava que fosse justo. Gostava de visitar os ...

A passageira ao lado

Ao contrário da maioria das pessoas ele sempre gostou de viajar em transportes coletivos. Não por alguma convicção anticapitalista, ambientalista ou quaisquer outro "ista" do tipo. Mas sim, pelas possibilidades. A certeza de que sempre haveria alguma novidade: pessoas diferentes, histórias diferentes, desconhecidos e todo o seu mundo a ser explorado o instigava profundamente. Era um curioso compulsivo. Sempre foi. Mas não do tipo intrometido. Daqueles que lhe salta os olhos a ideia de aprender algo, conhecer, absorver, unir à sua bagagem de vida. Uma data estava marcada. Uma nova jornada estava à vista. Por mais peregrino que as páginas da sua história o descrevessem, nunca havia ido tão longe. Coçava-se ao imaginar as possibilidades. Havia uma mulher. Sempre há. Com apenas um olhar de relance já detectou as suas características físicas mais chamativas: alta, pernas compridas, cabelos cacheados que certamente tocariam os seus quadris se estivessem molhados, boca p...

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