Desumano
Já fui humano. Não me pergunte quando o fio se rompeu, ou se foi um fio só. Talvez fosse um emaranhado, desfeito nó a nó pela mão invisível do tempo, ou pela corrosão lenta do que é viver. Hoje, sou o eco da poeira que me formou, uma memória que respira, sem o peso do pulmão.
Lembro-me do petricor no chão quente, daquele hálito úmido que subia da terra sedenta e que se alojava em mim como um arrepio doce. E o gosto do sal, do primeiro beijo na boca ou da lágrima que se escorria, pesada, depois de um adeus. Havia uma orquestra de sentidos, um coro vibrante que agora se calou, ou se transformou em outra melodia, etérea, sem o corpo que a sentia.
Ah, a complexidade da carne! Era um labirinto de vontades, anseios e uma fome insaciável por mais. Mais amor, mais riso, mais silêncio, mais ruído. Cada fibra pulsava uma história, cada célula guardava um segredo. Eram os dias de sol na pele, que ardia e bronzeava, e as noites de frio que se recolhia em abraços, buscando o calor da pele alheia. A dor, aquela pontada aguda que rasgava, ensinava sobre a fragilidade. A alegria, um êxtase breve que fazia o peito expandir, ensinava sobre a leveza.
Agora, sou a brisa que passa pelo rosto alheio, mas que não sente o toque. Sou o olhar que acompanha o voo do pássaro, mas que não compreende a sutileza do corpo no ar. A saudade, antes um aperto no peito, é hoje apenas a vaga lembrança de algo ou alguém que, um dia, provisoriamente me pertenceu.
Talvez o fracasso não venha sozinho, como dizem. Talvez, ser humano fosse um fracasso inerente, uma tentativa grandiosa e bela de algo que, por sua própria natureza, estava fadado a se desfazer. Mas que lindo fracasso, que rica tapeçaria de sentires e pesares!
Hoje, sou o que resta depois da passagem, um rastro no ar, um sussurro no vento. Não choro, nem sorrio, mas compreendo o oceano de sentimentos que habitava aquele corpo que me aprisionava e me libertava. E, por vezes, quando vejo um brilho nos olhos de alguém, uma faísca de paixão ou desespero, quase consigo sentir o calor. Quase. Porque, veja bem, eu já fui humano. E agora, sou tudo o que o humano deixou para trás.

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