Medíocre-mente

Eu queria ser medíocre.

Confesso, com a alma lavada num desejo quase profano, que minha maior aspiração se tornara a rasteira e confortável mediocridade. Sim, queria acordar às seis da manhã com uma alma sem vertigens, sem abismos nem clarões. Queria tomar o mesmo café, da mesma caneca, no mesmo silêncio previsível da mesma copa. Queria amar só o que cabe no armário, desejar só o que está em promoção. Queria não perguntar nada — nem mesmo se "querer" já é ousadia demais.

Minha vida sempre foi um palco iluminado, e eu, o ator principal de um drama que ninguém pedira. Cada passo, uma coreografia ensaiada para os olhos invisíveis da expectativa. Cada palavra, um poema meticulosamente lapidado para não soar banal. E a alma, exausta, clamava por um intervalo, por um simples e singelo pisar em falso, por um silêncio sem cobrança.

Queria andar pelas ruas sem notar a dança das árvores contra o vento, sem ser tocado pelo grito mudo de um pôr do sol entre prédios cansados. Queria ser aquele que passa sem se afetar, que vive sem metáforas, que atravessa os dias como quem carimba documentos — com data, firma reconhecida e nenhuma dúvida.

Ah, a beleza do erro despretensioso! Do verso que não rima, da receita que desanda, da ideia que não reluz, mas que, mesmo assim, é minha. Ah, como seria doce a covardia tranqüila de um mundo pequeno! Um mundo onde a alma cabe numa planilha de desempenho. Onde o afeto é correspondido só porque convém. Onde errar é perder pontos, em vez de perder a bússola.

Quanto tempo passei caçando o brilho, a faísca, a originalidade, esquecendo do lirismo no mais opaco dos dias. No riso sem motivo, na lágrima sem drama, na rotina que se desenha sem grandes pinceladas. Sonhava em ser a paisagem desfocada ao fundo, não o ponto focal que exige atenção. A melodia ambiente, e não a voz principal que todos esperam em uníssono.

Queria a liberdade de tropeçar e não sentir o chão se abrir sob meus pés, apenas a poeira, leve e sem julgamento, a se dissipar no ar. Queria ser a folha que cai sem pressa, sem querer ser a mais colorida do outono. Aquela que simplesmente cai e, no cair, encontra repouso.

Eu queria ser medíocre para não sangrar com beleza demais, para não perder o fôlego com a angústia de existir em excesso. Porque quem é medíocre não se afoga em pensamentos, não se soterra com perguntas sem resposta. Apenas vive. Apenas consome. Apenas repete.

Mas o problema — bendito maldito problema — é que nasci com sede. Sede de tudo. Sede de ver demais. Sede de ser demais, ainda que falhe. Sede de sentir o mundo com a pele inteira. E então eu não consigo. Não consigo ser medíocre. Porque vejo poesia até no lixo das madrugadas. Porque carrego dentro do peito uma orquestra de urgências. Porque me dói fingir que não vejo o que arde.

Talvez, no fim das contas, a mediocridade que tanto almejo não seja a ausência de brilho, mas a luz suave que emana da alma quando ela se permite ser imperfeita. Um suspiro profundo de quem finalmente se liberta do jugo de ser extraordinário, para simplesmente… existir. E nesse existir, encontrar a mais rara das excelências: a de ser verdadeiramente, em paz e sem esforço, eu.

Eu queria ser medíocre, juro! Queria arder monotonamente como brasa até se apagar. Mas Deus, ou o destino, ou a desgraça, me fez intenso. E agora, só me resta ser incêndio.

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