Ouro de tolo
Não é incomum encontrar vídeos no Youtube de pessoas afirmando, quase em êxtase, com brilho nos olhos, que comprar um iPhone foi uma conquista. Os títulos falam por si: "Realizei meu sonho", "Finalmente consegui!", "Chegou minha nova conquista". E, por alguns minutos, há ali uma celebração como se estivéssemos diante de uma vitória grandiosa.
Mas estamos falando de um celular, um objeto fabricado em escala industrial, lançado anualmente, projetado para se tornar obsoleto em pouco tempo, e vendido com a mesma lógica de qualquer outro produto de consumo. Entretanto, ainda assim tratado como se fosse o ápice da realização pessoal.
Foi nesse momento que me questionei o nível de pequenez da vida de alguém cuja maior conquista é comprar um produto da Apple.
O falso brilhante
Um iPhone não é uma vitória. Ele não é um troféu de vida. É apenas uma mercadoria com data de validade programada, pronta para ser substituída no próximo lançamento. Mas, embalados pelo marketing e pelo algorítimo, muitos passaram a ver essa aquisição como sinônimo de progresso e status social.
A vida, reduzida a isso, torna-se estreita, rasa, quase caricatural. Celebrar a compra de um celular como se fosse um marco existencial é, em última instância, celebrar a vitória da indústria sobre a nossa imaginação.
A questão não é o iPhone em si, mas aquilo que aceitamos chamar de conquista. Quando transformamos a aquisição de um bem de consumo em troféu existencial, diminuímos nossa própria noção de grandeza. Uma verdadeira conquista deveria estar ligada a superações internas, ao esforço que nos transforma, a algo que permanece conosco mesmo quando os objetos já perderam valor.
O seqüestro-relâmpago
Não é culpa individual, é claro. O mercado nos treinou a medir sucesso pelo que conseguimos comprar. As redes sociais amplificam isso. Cada "Unboxing" é um ritual sacro-moderno, cada vídeo de consumo ostentatório é uma catequese silenciosa: você só vale pelo que adquire. Mas quando nossas conquistas se resumem a caber numa sacola de loja, o que sobra de nós?
O que esses vídeos escancaram é a confusão entre progresso e posse. Vivemos num tempo em que "ter" substituiu "ser". Chega de deixar que a régua da nossa vida seja definida por uma marca que lança um produto novo a cada setembro. As verdadeiras conquistas não cabem em caixas elegantes nem em vídeos de "review". São vitórias que não se depreciam com o tempo, porque pertencem a nós, não ao mercado.
As conquistas reais não podem ser parceladas. Não podem ser desembrulhadas diante de uma câmera. Elas estão no conhecimento que acumulamos, nos vínculos que construímos, nos desafios que enfrentamos, nos medos que vencemos. São vitórias silenciosas, porém inquebráveis, que não ficam ultrapassadas quando a próxima versão é lançada.
Celebrar a compra de um celular como se fosse a realização de uma vida é, no fundo, aceitar que o limiar de nossas vitórias foi seqüestrado por uma lógica de consumo. E quando aceitamos isso, empobrecemos a experiência de existir.
A redefinição de fábrica
Este manifesto não é contra o iPhone, nem contra quem o compra. É contra a distorção da ideia de conquista. É um chamado para que deixemos de tratar consumo como triunfo, para que reivindiquemos de volta o direito de definir o que realmente importa.
Pois uma vida medida em parcelas, megapixels, gigabytes e atualizações anuais não é grandioso. É apenas um relexo pequeno demais daquilo que poderíamos ser. Porque a grandeza da vida só acontecerá realmente quando nossas conquistas forem maiores do que aquilo que cabe numa caixa de papelão.
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