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Mostrando postagens de novembro, 2025

O peso das palavras

 Dona Indaiá havia declarado sua greve pessoal contra o vozerio das certezas. Não era um protesto político nem uma reclusão forçada, apenas o reconhecimento maduro de quem, após décadas ensinando a arte de nomear o mundo, o ofício lhe havia secado por dentro. Ela, a antiga professora de português, mestra da concordância e da vírgula precisa, percebeu o cruel paradoxo: quanto mais se fala, menos se diz. As palavras, outrora ferramentas de construção, haviam se tornado poeira no ar. A vizinhança da rua das Palmeiras estranhava aquela figura de passos lentos e silêncio cortês. Indaiá respondia com a coreografia dos gestos — acenos breves, sorrisos que eram quase pedidos de desculpa pela simplicidade do próprio ser. Sussurravam que ela guardava um grande segredo; na verdade, ela guardava uma grande clareza. Toda quarta-feira, um ritual. Dona Indaiá saía com seu caderno de capa marrom, envelhecido como couro de árvore, e uma caneta de tinta azul-marinho, quase negra. Sentava-se sob a co...

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