O peso das palavras
Dona Indaiá havia declarado sua greve pessoal contra o vozerio das certezas. Não era um protesto político nem uma reclusão forçada, apenas o reconhecimento maduro de quem, após décadas ensinando a arte de nomear o mundo, o ofício lhe havia secado por dentro. Ela, a antiga professora de português, mestra da concordância e da vírgula precisa, percebeu o cruel paradoxo: quanto mais se fala, menos se diz. As palavras, outrora ferramentas de construção, haviam se tornado poeira no ar.
A vizinhança da rua das Palmeiras estranhava aquela figura de passos lentos e silêncio cortês. Indaiá respondia com a coreografia dos gestos — acenos breves, sorrisos que eram quase pedidos de desculpa pela simplicidade do próprio ser. Sussurravam que ela guardava um grande segredo; na verdade, ela guardava uma grande clareza.
Toda quarta-feira, um ritual. Dona Indaiá saía com seu caderno de capa marrom, envelhecido como couro de árvore, e uma caneta de tinta azul-marinho, quase negra. Sentava-se sob a copa generosa do ipê no parque ecológico municipal e escrevia. Não eram contos, crônicas nem poemas, mas murmúrios lapidados que precisavam existir nalgum lugar fora dela, fragmentos do que não cabia na confusão do falar. "Hoje a garganta do mundo está em brasa", anotou certa vez, com caligrafia firme. "As pessoas confundem a pressão do barulho com o valor da presença."
Um dia, o vento — esse eterno curioso e descuidado leitor — decidiu se intrometer. Soprou um vendaval leve, mas decidido, e espalhou as páginas como uma revoada de maritacas de papel pautado. Crianças correram atrás das folhas como quem corre atrás de pipas que se soltaram de seus cordões, rindo da inesperada caçada. Um menino, Tuba, com os joelhos ralados de brincar e com os olhos cheios daquela curiosidade juvenil, pegou uma delas. Antes de devolver, seus lábios se moveram, lendo em voz alta a frase que parou o riso e congelou o tempo:
— "As palavras são fósforos. Iluminam o escuro, mas também podem incendiar o mundo."
O som daquela verdade, vibrada na voz duma criança, despertou algo em dona Indaiá: um acorde esquecido. Ela se aproximou devagar, recolheu o papel das mãos do garoto e, depois de um breve silêncio, murmurou:
— Agora você entende por que eu falo pouco?
Tuba a olhou, a confusão honesta estampada na testa.
— Mas a senhora escreve…
Indaiá demorou a responder. Sentiu a intensidade do ar e respirou profundamente.
— Escrevo porque o papel não se machuca. Ele pode conter a verdade sem se queimar. Pouca gente percebe que o fogo também é uma forma de luz.
Tuba ficou quieto, sem entender bem se ela o repreendia ou o ensinava. Ela sorriu. Um sorriso raro, de quem vê a si mesma no outro.
Nas semanas seguintes, o menino começou a aparecer continuamente no parque. Primeiro, tímido, observando-a de longe. Depois, aproximou-se aos poucos, até sentar-se ao lado da professora. Ficavam horas ali, ela escrevendo, ele desenhando rabiscos no chão. Um silêncio confortável os unia, feito ponte sobre um rio calmo.
Quando o caderno se abria, Tuba se inclinava para espiar, curioso como o vento. Indaiá, às vezes, deixava. Noutras, apenas fechava as páginas com cuidado, como quem protege um pássaro. Num certo dia, ela o deixou ler uma frase:
"Antes de dizer amor, sinta o lastro dela. Algumas palavras são frágeis demais para carregar o peso do próprio significado."
Tuba novamente franziu a testa.
— E como a gente sente o peso de uma palavra?
Ela respondeu sem olhar para ele:
— Esperanto que ela te adentre.
A partir daí, tornou-se um hábito. Toda quarta-feira, os dois se encontravam. Ele levava um caderno pequeno, e ela lhe ensinava não apenas a escrever, mas a escutar. Falavam pouco e, ainda assim, compreendiam muito. Aprenderam juntos o vocabulário do silêncio, o glossário das pausas: o ranger das folhas, o tempo entre uma vírgula e outra, o modo como o vento soletra o nome das coisas.
As estações mudaram. O ipê perdeu as flores e voltou a florescer. O menino cresceu, mas manteve aquele olhar de quem ainda ouve antes de responder. Indaiá envelheceu um pouco mais, e suas mãos começaram a tremer, mas ainda seguravam a caneta com a mesma reverência.
Até que um dia, o lugar reservado sob a copa florida ficou vazio.
Anos depois, Tuba — já homem feito, de fala mansa e olhar quieto — voltou ao velho casarão de dona Indaiá. Encontrou o caderno sobre a mesa aberto na última página escrita. A letra trêmula ainda guardava a firmeza de quem sabia o que dizia:
"As palavras são pontes. Mas quem atravessa precisa saber nadar."
Tuba leu a frase e, seguindo o exemplo de sua amiga e tutora, fechou o caderno com cuidado, como quem guarda uma chama preciosa entre as mãos para não se apagar. O vento curioso soprou outra vez, folheando as páginas vazias que restavam, como se implorasse ao menino por mais palavras. Mas ele não escreveu nada. Apenas sentiu e sorriu, compreendendo, enfim, que o silêncio, às vezes, é o ponto de exclamação mais honesto, a forma mais exata de discurso.
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